Alô, secretária eletrônica?

por Maria Carolina

Oi. É tarde da noite, eu sei. Eu também sei que deveria estar dormindo, pois amanhã o dia será longo, mas é que eu precisava tanto saber de você. Eu também sei que a secretária eletrônica não será paciente para ouvir tudo que eu tenho para dizer de uma só vez, então me perdoa se eu a lotar recados e pedidos e saudade.
Sabe, hoje eu pensei muito em você. Acordei com uma saudade imensa de te ter ao meu lado na cama. Fui trabalhar pensando em como tudo seria se você ainda estivesse por aqui. Jantei na esperança de que, a qualquer momento, você entrasse pela porta e me pedisse desculpas por chegar tão tarde e explicasse que a culpa era do seu chefe. Tudo bem, eu diria. E estaria tudo bem. E eu tentei dormir sem você para me acarinhar. Me revirei de um lado para o outro da cama, que eu só percebi agora que é grande demais para uma pessoa tão pequena como eu. E pensei que poderia te ligar, que a gente poderia se falar, se entender, se amar mais uma vez.

Então… Eu sei que não deveria estar fazendo isso. Peço desculpas para a sua namorada caso ela esteja com você ao ouvir isso. Peço desculpas para você também. Eu sei que prometi que ia deixar pra lá. E já faz tanto tempo, também. Mas você me conhece, eu não consigo me conter.
Queria saber como vai a sua vida. Um pouquinho só. Se ainda trabalha naquela multinacional ou se finalmente resolveu ir atrás do seu sonho de ser ator. Se você ainda come maçã com leite condensado no café da manhã e se ainda toma um copo de leite quente com canela antes de se deitar. Se aquela sua camiseta furada do The Cure, que eu te dei há não sei quantos anos, ainda é a sua preferida. Queria saber se você tá bem, se ainda pensa em mim com carinho e só um pouquinho de saudade. Ou se você me odeia e se arrepende de um dia ter me conhecido.

Eu provavelmente não deveria perguntar, mas… É verdade que ela se parece comigo?
Não que eu tenha procurado saber, mas encontrei com a Simone em um bar semana passada e ela disse que a semelhança era grande. Que achava até que a menina fosse minha irmã gêmea um pouco mais nova e muito menos descontrolada.
Eu gostaria tanto de conhecê-la. Sei que nós duas temos algo em comum mesmo sem nos conhecermos, mas queria saber se somos mesmo parecidas. Se temos o mesmo gosto musical, literário, e se temos o mesmo ponto de vista sobre o mundo ou sobre política. Se nós temos o mesmo estilo de vida, talvez o mesmo corte de cabelo ou uma pinta um tanto semelhante na virilha… Ou se ela tem a mesma cor dos meus olhos.
(Silêncio.)
Desculpe, eu… É paranóia minha achar que você iria querer uma cópia minha. Desculpe. Eu…

É que, sabe, eu procurei por você em muitos caras. Quis encontrar seus olhos verdes em outros olhares, e aquele seu sorriso tímido em outras bocas. Quis achar suas opiniões sobre o cenário político internacional, um pouquinho só da ignorância e muito do seu carisma. Mas ninguém chegou perto.
E nenhum deles me entendia. Ou me queria tanto quanto você me quis um dia. Nenhum deles era você.
Eu chorei semanas, senão meses, de saudade. E provavelmente não deveria te dizer nada disso, mas já não tenho mais nada a perder. Eu chorei tanto a sua ausência nesse apartamento que a Sra. Costa, do andar de baixo, deve ter reclamado que seu teto estava com infiltrações. E tudo ficou tão grande sem você por perto. Tem espaço demais para as poucas coisas minhas. O guarda-roupa tá praticamente vazio, exceto por alguns vestidos que deixei pendurados lá.

E, não sei se você sabe, mas esqueceu algumas camisas por aqui. E aquele seu tênis, que costumava ser o seu favorito, ficou largado debaixo da cama.
Nas primeiras semanas, pensei que você voltaria para buscar tudo — as camisas, o tênis, eu, o nosso amor.
Meses passaram, e comecei a pensar que tinham cortado meu telefone e que, por engano, alguém poderia ter trocado a fechadura da porta impedindo que você entrasse e salvasse tudo aqui dentro. Mas estava tudo como sempre esteve. E eu esperei. E você nunca mais apareceu, então deixei tudo como estava.
E aumentei a dose do meu remédio, as consultas no psicólogo e as idas ao bar do Seu José todo fim de semana. Virei frequentadora assídua, com direito a meu próprio assento reservado na bancada. E, depois de um tempo, aprendi a conviver com o eco da sua ausência. Não me incomodava, não me machucava…

Até hoje.
Hoje eu acordei com você me sufocando o peito. Com você entalado na minha garganta. Com você espalhado pelo apartamento. Com você todo em mim.
E tudo voltou. Menos você. Menos nós. E eu precisei te ligar e tirar tudo do meu peito porque, meu Deus, eu sou tão pequena e frágil para carregar algo tão grande e pesado como essa saudade esmagadora de você. Pensei que você, talvez, pudesse pegar um pouco para você e aliviar os sentimentos.
Eu sei que é pedir muito. Sei que é atormentar essa paz que você conseguiu manter ininterrupta por anos. Sei que é cruzar as linhas proibidas que foram estabelecidas com o nosso fim. Mas é que eu preciso tanto de você agora. Só um pouco. Só até toda essa angustia passar e eu perceber que perturbei a ordem das nossas vidas e me arrepender e me desculpar. E aí você pode voltar para a sua vida e eu prometo que não faço mais isso. Nunca mais. Eu só…

Por favor, me diz alguma coisa. Qualquer coisa. Eu sei que você tá aí. Só um vai se foder ou um sai da minha vida. Qualquer coisa só para eu saber que não liguei para a pessoa errada ou que eu não to ficando louca falando sozinha com a sua secretária eletrônica.
Por favor… Por favor. Eu te amo.

— Oi. Eu te amo.

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