3h46

por Maria Carolina

Ela me ligou de madrugada. Eram 3h46. Quase não acreditei quando ouvi sua voz doce e melodiosa do outro lado da linha.

— Te acordei? — Ela pergunta, e logo em seguida dá um risinho tímido. — Desculpa te acordar.

— Não tem problema — eu digo. Ela suspira.

Fico esperando ela dizer alguma coisa. Nada. Acho se passaram uns 15 minutos sem que ela nem eu falássemos alguma coisa, mas eu ainda podia ouvir sua respiração na linha.

Ela é assim. Me liga de madrugada, depois de seis meses sem mandar notícias, e fica em silêncio. Acho que estava esperando que eu falasse alguma coisa, mas não tinha muito que falar. Na verdade, havia muito que falar, mas as palavras me fugiram à mente, à boca, e eu só conseguia me concentrar na respiração lenta e ritmada dela.

— Desculpa, eu nem sei por que te liguei, é só que…

— Tudo bem, eu sei. — E sabia mesmo. Ela nunca sabia por que ligava, e tudo bem, sério. Eu não me importava.

— Acho que eu to solitária, sabe?

Eu sei, penso em dizer. Eu também to. Mas não digo nada e ela continua.

— Eu achei umas fotos nossas perdidas numa caixa qualquer da mudança. Daquele dia que fizemos piquenique, lembra? Acho que foi alguns meses antes do, bem, você sabe…

Do fim, completo mentalmente. Eu lembro.

— Você tinha um sorriso gigante na cara. Sei lá, acho que liguei porque fiquei nostálgica. E porque to solitária. E minha cama tá vazia e gelada. E meu coração também.

É minha vez de suspirar e, mesmo não podendo vê-la, sei que sua boca se fechou em uma linha tensa e ela está com os olhos arregalados, provavelmente pensando que vai ouvir poucas e boas. Bem que ela merece, mas não vou falar poucas e boas pra essa garota.

Eu deveria ter desligado na cara dela, dito que tinha que acordar cedo no dia seguinte, ignorá-la e voltar pra minha vida, que vinha sendo pacata e tranquila, às vezes mediocremente tediosa, nos últimos seis meses desde que ela apareceu na porta da minha casa e disse que tava indo embora da minha vida.

— Você ainda tá aí? — Ela pergunta.

— To. Eu sempre to aqui.

Ela sabe disso. É por isso que ligou. Sei lá, cara, eu simplesmente não posso dizer não quando ela liga. E ela sempre liga de madrugada, com a voz melódica, aquela que ela sabe que eu não resisto, e começa a me falar dos problemas.

— Como vai sua mãe?

— Vai bem, eu acho. Tem algumas semanas que não a vejo, mas ela tá bem, sim. Obrigada. E a sua?

— Perguntou de você dia desses. De nós. Disse que faz tempo que não te vê.

— E você respondeu o quê?

— Não respondi. Acho que ainda não to pronta pra falar sobre você, sabe? Eu sei que acabou. Acabou mesmo. Mas não gosto de fins. Prefiro os meios. São muito mais interessantes.

Suspiro novamente. Ela podia estar me falando sobre o babaca com quem estava fodendo na faculdade naquele semestre, mas resolveu falar de mim. De nós. Tudo bem.

— Por que você ligou?

Posso ouvi-la se engasgando com as palavras.

— Não sei. Só queria falar com você.

E naquele momento eu desejei que ela desligasse e apagasse meu número da memória do celular e realmente saísse da minha vida. Essa coisa de “to indo embora da sua vida, mas vou aparecer de vez em quando” não fazia parte do trato, fazia? Bom, se eu soubesse que fazia, não teria aceitado. Ou você fica ou você vai embora de vez. Não tem essa de ser fantasma. Ninguém gosta de assombração.

Mas, por outro lado, eu sei que sentiria falta dela. Eu já sentia. Todos os dias antes de dormir. Às vezes também ao acordar. E vivia me perguntando: o que é que essa menina tem?

— Por que é que você foi embora, hein? — Não me pergunte por que eu perguntei isso. As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse perceber a merda que tava fazendo.

Ela ficou surpresa. Sei que deve ter protelado muito, escolhendo as palavras certas pra dizer que se mandou porque era melhor pra ela. Pra nós. E voltar com todo aquele discurso de “a gente não pode dar certo nunca, então é melhor acabar agora, antes que a gente acabe se magoando mais”.

— Porque é isso que eu faço.

Pronto. Vai começar. Ela vai dizer que não tem psicológico pra manter um relacionamento que dure mais que algumas semanas. Eu sei, porque já ouvi isso antes. Dela e de outras.

— E por que tá me ligando?

— Porque é isso que eu faço.

Eu sei. Ela gosta de confundir. A pequena é assim. Pequena demais em tamanho, grande demais nas confusões. Pelo menos nas que ela causava dentro de mim. Fora também. Quer dizer, ela é confusa, e me confundia muito.

— Eu liguei porque eu quase te esqueci. Conheci alguns caras, alguns eu até cheguei a Amar — sabe, Amar, com A maiúsculo e tudo mais — e já sofri por eles também. Mas é que, quando eu to sozinha assim, nesse intervalo de tempo entre esses caras, e eu fico só com meus pensamentos e confusões, meus sentimentos apontam as armas pra mim e mostram você como refém. Só tem você. Você num sábado à noite depois de terminar com alguém e você quando eu to sozinha e reclusa em casa por medo de alguém entrar na minha vida, e a culpa é sua. Tem você nos textos que eu escrevo, nos que eu leio, nas músicas que escuto, nos comerciais de papel higiênico na TV. Ainda tem você em cada parte do que eu sou. Mil anos e alguns caras depois, e ainda é você.

Ah, fodeu. É a única coisa que eu consigo pensar. Já deve ser quase 4h30, e eu realmente deveria dormir, mas fodeu.

Tudo que eu quero é descruzar nossas vidas. Desviar meu caminho completamente daquele que iria cruzar com a vida dela e embolar nossas vidas em uma só e depois ficar nesse nó, onde não existe nós, mas também não somos eu e ela.

Eu poderia dizer muitas coisas. Muitas mesmo. Poderia mandá-la ir se foder. Ou ir foder a vida de um outro alguém que não eu. Quem ela tá pensando que é? Ela tá achando que é dona de mim? Que é só chegar e falar as coisas certas e erradas? Porra, ela tá certinha. E a única coisa que eu conseguia pensar era no Noel Gallagher cantando.

— Tá frio hoje, né? — Comento.

— Tem feito bastante frio nesses últimos meses — ela lamenta.

— Sua cama tá fria?

— Um pouco.

— Bom, você sabe, eu sempre durmo com uns cobertores a mais. E na minha cama tem espaço pra mais um. O coração a gente resolve quando você chegar aqui.

If I had the time, I’d stop the world and make you mine. And everyday would be the same with you.

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