Treze Primaveras

Meu inverno sempre dura mais que a primavera.

Alô, secretária eletrônica?

Oi. É tarde da noite, eu sei. Eu também sei que deveria estar dormindo, pois amanhã o dia será longo, mas é que eu precisava tanto saber de você. Eu também sei que a secretária eletrônica não será paciente para ouvir tudo que eu tenho para dizer de uma só vez, então me perdoa se eu a lotar recados e pedidos e saudade.
Sabe, hoje eu pensei muito em você. Acordei com uma saudade imensa de te ter ao meu lado na cama. Fui trabalhar pensando em como tudo seria se você ainda estivesse por aqui. Jantei na esperança de que, a qualquer momento, você entrasse pela porta e me pedisse desculpas por chegar tão tarde e explicasse que a culpa era do seu chefe. Tudo bem, eu diria. E estaria tudo bem. E eu tentei dormir sem você para me acarinhar. Me revirei de um lado para o outro da cama, que eu só percebi agora que é grande demais para uma pessoa tão pequena como eu. E pensei que poderia te ligar, que a gente poderia se falar, se entender, se amar mais uma vez.

Então… Eu sei que não deveria estar fazendo isso. Peço desculpas para a sua namorada caso ela esteja com você ao ouvir isso. Peço desculpas para você também. Eu sei que prometi que ia deixar pra lá. E já faz tanto tempo, também. Mas você me conhece, eu não consigo me conter.
Queria saber como vai a sua vida. Um pouquinho só. Se ainda trabalha naquela multinacional ou se finalmente resolveu ir atrás do seu sonho de ser ator. Se você ainda come maçã com leite condensado no café da manhã e se ainda toma um copo de leite quente com canela antes de se deitar. Se aquela sua camiseta furada do The Cure, que eu te dei há não sei quantos anos, ainda é a sua preferida. Queria saber se você tá bem, se ainda pensa em mim com carinho e só um pouquinho de saudade. Ou se você me odeia e se arrepende de um dia ter me conhecido.

Eu provavelmente não deveria perguntar, mas… É verdade que ela se parece comigo?
Não que eu tenha procurado saber, mas encontrei com a Simone em um bar semana passada e ela disse que a semelhança era grande. Que achava até que a menina fosse minha irmã gêmea um pouco mais nova e muito menos descontrolada.
Eu gostaria tanto de conhecê-la. Sei que nós duas temos algo em comum mesmo sem nos conhecermos, mas queria saber se somos mesmo parecidas. Se temos o mesmo gosto musical, literário, e se temos o mesmo ponto de vista sobre o mundo ou sobre política. Se nós temos o mesmo estilo de vida, talvez o mesmo corte de cabelo ou uma pinta um tanto semelhante na virilha… Ou se ela tem a mesma cor dos meus olhos.
(Silêncio.)
Desculpe, eu… É paranóia minha achar que você iria querer uma cópia minha. Desculpe. Eu…

É que, sabe, eu procurei por você em muitos caras. Quis encontrar seus olhos verdes em outros olhares, e aquele seu sorriso tímido em outras bocas. Quis achar suas opiniões sobre o cenário político internacional, um pouquinho só da ignorância e muito do seu carisma. Mas ninguém chegou perto.
E nenhum deles me entendia. Ou me queria tanto quanto você me quis um dia. Nenhum deles era você.
Eu chorei semanas, senão meses, de saudade. E provavelmente não deveria te dizer nada disso, mas já não tenho mais nada a perder. Eu chorei tanto a sua ausência nesse apartamento que a Sra. Costa, do andar de baixo, deve ter reclamado que seu teto estava com infiltrações. E tudo ficou tão grande sem você por perto. Tem espaço demais para as poucas coisas minhas. O guarda-roupa tá praticamente vazio, exceto por alguns vestidos que deixei pendurados lá.

E, não sei se você sabe, mas esqueceu algumas camisas por aqui. E aquele seu tênis, que costumava ser o seu favorito, ficou largado debaixo da cama.
Nas primeiras semanas, pensei que você voltaria para buscar tudo — as camisas, o tênis, eu, o nosso amor.
Meses passaram, e comecei a pensar que tinham cortado meu telefone e que, por engano, alguém poderia ter trocado a fechadura da porta impedindo que você entrasse e salvasse tudo aqui dentro. Mas estava tudo como sempre esteve. E eu esperei. E você nunca mais apareceu, então deixei tudo como estava.
E aumentei a dose do meu remédio, as consultas no psicólogo e as idas ao bar do Seu José todo fim de semana. Virei frequentadora assídua, com direito a meu próprio assento reservado na bancada. E, depois de um tempo, aprendi a conviver com o eco da sua ausência. Não me incomodava, não me machucava…

Até hoje.
Hoje eu acordei com você me sufocando o peito. Com você entalado na minha garganta. Com você espalhado pelo apartamento. Com você todo em mim.
E tudo voltou. Menos você. Menos nós. E eu precisei te ligar e tirar tudo do meu peito porque, meu Deus, eu sou tão pequena e frágil para carregar algo tão grande e pesado como essa saudade esmagadora de você. Pensei que você, talvez, pudesse pegar um pouco para você e aliviar os sentimentos.
Eu sei que é pedir muito. Sei que é atormentar essa paz que você conseguiu manter ininterrupta por anos. Sei que é cruzar as linhas proibidas que foram estabelecidas com o nosso fim. Mas é que eu preciso tanto de você agora. Só um pouco. Só até toda essa angustia passar e eu perceber que perturbei a ordem das nossas vidas e me arrepender e me desculpar. E aí você pode voltar para a sua vida e eu prometo que não faço mais isso. Nunca mais. Eu só…

Por favor, me diz alguma coisa. Qualquer coisa. Eu sei que você tá aí. Só um vai se foder ou um sai da minha vida. Qualquer coisa só para eu saber que não liguei para a pessoa errada ou que eu não to ficando louca falando sozinha com a sua secretária eletrônica.
Por favor… Por favor. Eu te amo.

— Oi. Eu te amo.

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3h46

Ela me ligou de madrugada. Eram 3h46. Quase não acreditei quando ouvi sua voz doce e melodiosa do outro lado da linha.

— Te acordei? — Ela pergunta, e logo em seguida dá um risinho tímido. — Desculpa te acordar.

— Não tem problema — eu digo. Ela suspira.

Fico esperando ela dizer alguma coisa. Nada. Acho se passaram uns 15 minutos sem que ela nem eu falássemos alguma coisa, mas eu ainda podia ouvir sua respiração na linha.

Ela é assim. Me liga de madrugada, depois de seis meses sem mandar notícias, e fica em silêncio. Acho que estava esperando que eu falasse alguma coisa, mas não tinha muito que falar. Na verdade, havia muito que falar, mas as palavras me fugiram à mente, à boca, e eu só conseguia me concentrar na respiração lenta e ritmada dela.

— Desculpa, eu nem sei por que te liguei, é só que…

— Tudo bem, eu sei. — E sabia mesmo. Ela nunca sabia por que ligava, e tudo bem, sério. Eu não me importava.

— Acho que eu to solitária, sabe?

Eu sei, penso em dizer. Eu também to. Mas não digo nada e ela continua.

— Eu achei umas fotos nossas perdidas numa caixa qualquer da mudança. Daquele dia que fizemos piquenique, lembra? Acho que foi alguns meses antes do, bem, você sabe…

Do fim, completo mentalmente. Eu lembro.

— Você tinha um sorriso gigante na cara. Sei lá, acho que liguei porque fiquei nostálgica. E porque to solitária. E minha cama tá vazia e gelada. E meu coração também.

É minha vez de suspirar e, mesmo não podendo vê-la, sei que sua boca se fechou em uma linha tensa e ela está com os olhos arregalados, provavelmente pensando que vai ouvir poucas e boas. Bem que ela merece, mas não vou falar poucas e boas pra essa garota.

Eu deveria ter desligado na cara dela, dito que tinha que acordar cedo no dia seguinte, ignorá-la e voltar pra minha vida, que vinha sendo pacata e tranquila, às vezes mediocremente tediosa, nos últimos seis meses desde que ela apareceu na porta da minha casa e disse que tava indo embora da minha vida.

— Você ainda tá aí? — Ela pergunta.

— To. Eu sempre to aqui.

Ela sabe disso. É por isso que ligou. Sei lá, cara, eu simplesmente não posso dizer não quando ela liga. E ela sempre liga de madrugada, com a voz melódica, aquela que ela sabe que eu não resisto, e começa a me falar dos problemas.

— Como vai sua mãe?

— Vai bem, eu acho. Tem algumas semanas que não a vejo, mas ela tá bem, sim. Obrigada. E a sua?

— Perguntou de você dia desses. De nós. Disse que faz tempo que não te vê.

— E você respondeu o quê?

— Não respondi. Acho que ainda não to pronta pra falar sobre você, sabe? Eu sei que acabou. Acabou mesmo. Mas não gosto de fins. Prefiro os meios. São muito mais interessantes.

Suspiro novamente. Ela podia estar me falando sobre o babaca com quem estava fodendo na faculdade naquele semestre, mas resolveu falar de mim. De nós. Tudo bem.

— Por que você ligou?

Posso ouvi-la se engasgando com as palavras.

— Não sei. Só queria falar com você.

E naquele momento eu desejei que ela desligasse e apagasse meu número da memória do celular e realmente saísse da minha vida. Essa coisa de “to indo embora da sua vida, mas vou aparecer de vez em quando” não fazia parte do trato, fazia? Bom, se eu soubesse que fazia, não teria aceitado. Ou você fica ou você vai embora de vez. Não tem essa de ser fantasma. Ninguém gosta de assombração.

Mas, por outro lado, eu sei que sentiria falta dela. Eu já sentia. Todos os dias antes de dormir. Às vezes também ao acordar. E vivia me perguntando: o que é que essa menina tem?

— Por que é que você foi embora, hein? — Não me pergunte por que eu perguntei isso. As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse perceber a merda que tava fazendo.

Ela ficou surpresa. Sei que deve ter protelado muito, escolhendo as palavras certas pra dizer que se mandou porque era melhor pra ela. Pra nós. E voltar com todo aquele discurso de “a gente não pode dar certo nunca, então é melhor acabar agora, antes que a gente acabe se magoando mais”.

— Porque é isso que eu faço.

Pronto. Vai começar. Ela vai dizer que não tem psicológico pra manter um relacionamento que dure mais que algumas semanas. Eu sei, porque já ouvi isso antes. Dela e de outras.

— E por que tá me ligando?

— Porque é isso que eu faço.

Eu sei. Ela gosta de confundir. A pequena é assim. Pequena demais em tamanho, grande demais nas confusões. Pelo menos nas que ela causava dentro de mim. Fora também. Quer dizer, ela é confusa, e me confundia muito.

— Eu liguei porque eu quase te esqueci. Conheci alguns caras, alguns eu até cheguei a Amar — sabe, Amar, com A maiúsculo e tudo mais — e já sofri por eles também. Mas é que, quando eu to sozinha assim, nesse intervalo de tempo entre esses caras, e eu fico só com meus pensamentos e confusões, meus sentimentos apontam as armas pra mim e mostram você como refém. Só tem você. Você num sábado à noite depois de terminar com alguém e você quando eu to sozinha e reclusa em casa por medo de alguém entrar na minha vida, e a culpa é sua. Tem você nos textos que eu escrevo, nos que eu leio, nas músicas que escuto, nos comerciais de papel higiênico na TV. Ainda tem você em cada parte do que eu sou. Mil anos e alguns caras depois, e ainda é você.

Ah, fodeu. É a única coisa que eu consigo pensar. Já deve ser quase 4h30, e eu realmente deveria dormir, mas fodeu.

Tudo que eu quero é descruzar nossas vidas. Desviar meu caminho completamente daquele que iria cruzar com a vida dela e embolar nossas vidas em uma só e depois ficar nesse nó, onde não existe nós, mas também não somos eu e ela.

Eu poderia dizer muitas coisas. Muitas mesmo. Poderia mandá-la ir se foder. Ou ir foder a vida de um outro alguém que não eu. Quem ela tá pensando que é? Ela tá achando que é dona de mim? Que é só chegar e falar as coisas certas e erradas? Porra, ela tá certinha. E a única coisa que eu conseguia pensar era no Noel Gallagher cantando.

— Tá frio hoje, né? — Comento.

— Tem feito bastante frio nesses últimos meses — ela lamenta.

— Sua cama tá fria?

— Um pouco.

— Bom, você sabe, eu sempre durmo com uns cobertores a mais. E na minha cama tem espaço pra mais um. O coração a gente resolve quando você chegar aqui.

If I had the time, I’d stop the world and make you mine. And everyday would be the same with you.

Carolina

Estive pensando se deveria te escrever, ou se deveria deixar pra lá. Pensando se você, talvez, gostaria de um abraço, ou se deveria fingir que esqueci as partes de você que ficaram por aqui. Acontece que pensar demais acaba levando a nada, e volto à estaca zero, pensando em como chegar até você.

Não sei o que foi que me prendeu tanto em você. Talvez tenha sido esse seu jeito de menina-mulher, mas no fundo apenas uma criança. Pode ser porque você se pareça muito com aquela atriz, aquela que você adora, que tem um charme distorcido e cabelos ondulados, e que o nome me foge à mente, mas que você sabe quem é. Ou pode ter sido a sua coletânea de discos improváveis, surpreendendo-me.

A verdade é que encontrei em você o amor –– ou achei que tinha encontrado. Aquele amor pelo qual viajei muitos lugares e me faltava em todas as estações. E me peguei pensando, de uma maneira que nunca previ, que gostaria que você estivesse por perto. Pra cuidar de você, dos seus dengos, dos seus prantos, dos seus danos… Nós sabemos que só estivemos realmente bem quando estávamos juntos.

Eu só queria que você fosse feliz, você disse. Pois bem, eu também só queria que você fosse feliz. E de todos os meus atos, voltar para você foi o mais egoísta e covarde de todos os que se arrastaram por esses meses. Eu apenas queria que tudo voltasse a andar nos trilhos. Queria as conversas às três da manhã e do seu corpo suado, nu, ao meu lado. Você me esperando… Eu ando querendo tudo que já passou e talvez isso não seja bom para nós. Ou para qualquer outra pessoa que sinta saudades de alguém.

As pessoas dizem que eu mudei, mas não é verdade. Eu tentei mudar, pra ver se mudando eu te merecia. Mas você já não se importa mais com isso. Você é a única pessoa para quem quero contar sobre o meu dia, mas já não é mais curiosa; não quer mais saber como foi o dia no trabalho, ou se cortei o cabelo, ou como vai minha mãe… E assim é melhor.

Ah, Carolina, se ao menos eu pudesse te apagar definitivamente, como em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Apagar por inteira, não deixando ficar estes restos de você que só pioram a memória. Mas como não posso, pretendo te odiar ou não nutrir mais nenhum sentimento bom por você. Ou não nutrir nenhum.

Enfrentei mal-amores, anos sem-amor, e experimentei do mais sincero, da mais sincera garota, de quem eu conheço mais que a mim mesmo. Um dia a gente vai se encontrar. Um dia. Não agora –– ou num futuro tão próximo assim. Só não me deixe, Carolina, viver em cima desse nosso reencontro. Não me deixa achar que ainda posso lutar por você, que tudo voltará a ser como era antes.

Eu apenas quero te dizer que não quero ter mais nada a dizer para você.